sábado, 1 de janeiro de 2011

TALENTO E SUOR

Nas artes cênicas, inspiração é importante, mas a busca por conhecimento e dedicação são essenciais para alcançar o sucesso

Para ser ator, a necessidade de talento é indiscutível. Engana-se, no entanto, quem pensa que somente esta qualidade é determinante para uma carreira bem-sucedida no campo das artes cênicas. Em Belo Horizonte, o mercado de trabalho para a profissão tem indicado potencial de crescimento, mas, a exemplo de outros locais, exige, cada vez mais, constante estudo e dedicação.

A primeira etapa para o ingresso na carreira artística é a regularização profissional. Há dois tipos de registro em Minas Gerais. O primeiro, de caráter provisório, é válido por seis meses e exige a assinatura de um contrato de trabalho. O registro definitivo, por sua vez, pode ser concedido após a graduação em algum dos cursos profissionalizantes existentes na capital. Segundo Magdalena Rodrigues, presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões de Minas de Gerais (Sated-MG), o interessado deve ser cauteloso na escolha de instituições de ensino idôneas, devidamente reconhecidas, pois, caso contrário, terá que fazer o exame de capacitação profissional, que custa R$ 130 e consiste em uma prova prática e uma escrita.

A presidente, que com 54 anos, acumula quase 30 anos de experiência como atriz, opina sobra a importância do ofício e critica sua atual “glamourização”. “O artista cênico é formador de opinião no ambiente familiar e um dos trabalhadores mais significativos e influentes na sociedade. Infelizmente, temos observado uma grande quantidade de jovens desiludidos e sem horizontes, que consideram a carreira artística um caminho mais fácil, acreditando que ela não demanda estudo e disciplina” diz.

Magdalena também chama a atenção para aspectos frequentemente confundidos durante a escolha dos interessados. Segundo ela, a simples manifestação artística, direito constitucional garantido a toda e qualquer pessoa, não é o mesmo que fazer da arte uma profissão. “Extroversão não é sinônimo de talento para atuar. Gostar da área é importante, mas estudar é imprescindível, assim como em qualquer profissão”, adverte.

O Sated-MG já conta com 4.780 artistas sindicalizados, desde a sua abertura em 1995, e o dobro de registros definitivos concedidos, no mesmo período. Durante o ano de 2008, a entidade emitiu 378 registros profissionais, 15% a mais do que em 2007, quando 330 requerimentos foram aprovados. A presidente ressalta que o piso salarial da categoria é apenas uma referencial, pois, geralmente, o pagamento é feito por meio de cachês, de acordo com a bilheteria da semana. “Existe uma determinação para que o ator não receba menos do que um salário mínimo por mês”, explica.

A capital oferece três possibilidades àqueles que querem se matricular em escolas profissionalizantes. Durante os estudos, os alunos poderão ter acesso a disciplinas teóricas, como história do teatro e literatura dramática, conteúdos técnicos para o trabalho com a voz e o corpo, além de técnicas de interpretação e improvisação.

O curso de teatro da PUC, que tem duração de um ano e meio e disponibiliza turmas no período da manhã, tarde e noite, três vezes por semana, tem custo total aproximado de R$ 3.120. Os cursos da escola de teatro do Palácio das Artes, que possui mensalidade de cerca de R$ 150, e o e da UFMG, que é gratuito, têm duração de três anos. Ambos condicionam o ingresso à aprovação em todas as etapas de seus processos seletivos.

Uma característica na rotina de muitos atores é vida profissional dupla. Na maioria das vezes, a opção por trabalhar em uma segunda profissão é feita devido às dificuldades de se manter apenas com a remuneração oferecida na área artística.

A atriz e estagiária de jornalismo Julianna Fernandez, 32 anos, é um exemplo disso. Desde 1999, ela divide seu tempo entre as artes cênicas e outras profissões. Quando criança, a estagiária já queria ser atriz e, para unir talento a conhecimento técnico, fez, durante três anos e meio, um curso livre no Centro de Pesquisas Teatrais no Sesiminas. Para a artista, o estudo foi imprescindível como base na aquisição de experiência profissional. Em 2002, Julianna fez os testes no Sated e adquiriu o registro definitivo. A atriz destaca a importância desta regularização, pois, atualmente, a maioria dos produtores exige o certificado quando contratam atores. Em busca de novas perspectivas e uma remuneração mais estável, ela decidiu entrar para a faculdade. “O salário do teatro não paga minhas contas, apenas ajuda em algumas despesas, quando há algum espetáculo”, conta.

A estagiária afirma que tem o sonho de viver só do teatro, pois se fosse escolher entre a profissão de ator e jornalista, faria opção pela primeira. Julianna deixa claro que se dedicar a duas profissões exige sacrifício e disciplina. É preciso estar disposto a ter uma rotina “corrida e pesada”. Ela relata que, várias vezes, precisou faltar ao estágio por causa dos espetáculos.

Buscar uma segunda profissão para complementar o orçamento não é novidade entre os atores. Até mesmo os veteranos já passaram por isso. Antes de viver apenas das artes cênicas, o ator Carlos Nunes trabalhou, entre outras coisas, como animador de festas e cozinheiro de restaurante. Há dez anos, suas conquistas profissionais passaram a financiar seus custos de vida. O artista, formado no Palácio das Artes, conta que a mudança veio a partir do momento que ele percebeu que deveria ser um empreendedor e começou a produzir seus próprios espetáculos.

De acordo com Nunes, a vantagem de ser autônomo é não precisar esperar para ser requisitado. “Além disso, ao participar de todas as etapas de construção da peça, ela fica com a cara do artista”, diz. O ator explica que, anos atrás, não existia tradição em escolas de teatro. O profissional tinha que se pautar apenas pelo talento. “Hoje em dia, o estudo é indispensável. Não há nada pior que um profissional das artes mal formado”, opina.