(Perfil de Márcia César)
Seu nome, que vem do latim, significa “guerreira”. Nada mais apropriado para descrever Márcia César: esposa, mãe, pedagoga e estudante de jornalismo que, aos 54 anos, mantém e defende a filosofia de que viver sempre vale à pena.
Foi na capital de Minas Gerais, em uma Lagoinha perdida no tempo, que seu pai constituiu família e abriu um pequeno restaurante. Márcia é a mais velha de dez irmãos e, ainda muito nova, se mudou para o bairro Caiçara. A ligação com a famosa região boêmia, no entanto, permaneceu. “Não guardo muitas lembranças, mas sempre me interessei pelas histórias que ouvia sobre o local”, comenta.
Márcia não nega sua paixão por Belo Horizonte. A capacidade de observar, somada à imaginação fértil, já presente na infância, só aumentou a vontade de homenagear sua cidade natal. “Eu tinha contato com muitos compositores da época. Meu sonho era escrever a letra de uma música que falasse daqui”, conta. O desejo não se realizou, mas o hábito da leitura, herança dos primeiros anos de vida, é algo que a educadora traz consigo até hoje. “Com tantos filhos, é claro que minha mãe não tinha tempo para se dedicar individualmente a cada um de nós. Ler se tornou, então, o meu refúgio. Ia à biblioteca com freqüência e cheguei a ler, por exemplo, toda a obra de Monteiro Lobato”, relata.
A admiração de Márcia fica evidente ao falar de seu pai, Geraldo, que, segundo ela, foi um dos homens mais inteligentes que conheceu “Ele não era formado, mas sempre nos ensinou que a maior herança que se pode deixar é a educação”, relembra. As lágrimas parecem inevitáveis e a voz fica embargada ao se recordar de participação do pai na batalha de Monte Castelo, durante a 2ª Segunda Guerra, que acabou lhe causando a surdez de um dos ouvidos e graves traumas psicológicos por toda a vida. “Ele foi convocado porque era órfão e morava no interior. Tinha muito orgulho em desfilar e também muito orgulho de mim, principalmente quando me pedia para recitar para as visitas um poema que falava de um pedido de natal, feito pelo filho de um combatente de guerra”, diz, emocionada.
A primogênita sempre brincou muito com os irmãos, seja na rua, seja em casa. Produções teatrais improvisadas eram freqüentes e a vizinhança costumava ser convidada para as apresentações que aconteciam no porão de sua casa. Sua proximidade com o irmão mais velho, Márcio, lhe proporcionou momentos de muita diversão. “Pude ter uma infância que, infelizmente, não é mais possível nos dias atuais”.
Sua adolescência foi marcada pela timidez e por amores impossíveis. Para sublimar os sentimentos, escrevia poemas. “Era muito alta pra minha idade e só me apaixonava por quem não era meu”, lembra Márcia, que, curiosamente, não gostava de quem “pegasse no seu pé”. O primeiro beijo, aos 17 anos, foi motivo de preocupação inocente. “Pela minha formação em colégio de freiras, achei que o rapaz teria que se casar comigo”, conta, em meio a gargalhadas.
A timidez deu lugar ao espírito subversivo, tão logo a estudante se viu transferida do Colégio São Pascoal para o Estadual Central, no início da década de 60. Em meio à ebulição do movimento hippie e a dureza do governo militar, Márcia teve seu primeiro contato com causa estudantil. O desejo de se engajar politicamente foi grande e ela se viu obrigada a mudar novamente de escola, fugindo da tentação de se tornar militante. “Uma vez, escrevi uma carta para o presidente da república. Meu pai me chamou pra conversar e perguntou se eu queria destruir nossa família. Para não magoá-lo e prejudicar meus irmãos, acabei indo estudar em outro colégio e, por um tempo, fiquei totalmente alienada”, justifica.
A entrada para o mundo acadêmico se deu por meio do curso de Belas Artes da UFMG. No mesmo período, aprovada em um concurso público do governo do Estado, Márcia iniciou treinamento na área de economia doméstica. Aos 21 anos, deixou a universidade e mudou-se para Montes Claros, já empossada no cargo. Foi na cidade do interior, que se formou em Pedagogia e conheceu o marido, Ricardo. “Foi amor à primeira vista. Dois meses depois, já estávamos noivos”, conta. O casamento teria acontecido rapidamente, se os pais não tivessem exigido que o casal esperasse pelo menos um ano para oficializar a união.
Márcia conta que nasceu para casar, mas não para ser dona de casa. Para ela, independência e respeito à individualidade são requisitos indispensáveis para o sucesso de uma relação. “Acho que o casamento deveria ser visto de forma mais positiva, sobretudo pelas mulheres. É uma conquista diária e, também, é um jogo de sedução, no qual cada um deve ceder um pouquinho”, ensina.
O ano de 2007 marcou o primeiro passo na realização de um antigo sonho. Vencendo preconceitos, Márcia iniciou o curso de jornalismo, oportunidade que, no seu entender, foi de pura libertação. “Estou apaixonada pelo curso. É muito bom poder falar o que se pensa. Gosto de escrever e não pude expressar minhas opiniões quando era mais nova”, ressalta. A convivência com pessoas mais jovens também é algo que muito satisfaz à universitária. Em sua opinião, o maior aprendizado tem sido com seus colegas de sala, que a fazem sentir mais jovem e integrada, a ponto de esquecer a própria idade. A alegria da convivência não a impede, por outro lado, de constatar uma certa tristeza nesta nova geração, que, segundo ela, aceita as coisas mais passivamente e não cria laços de cumplicidade.
Sonhos, aliás, não faltam para a pedagoga que, também, ainda pretende se formar em Direito. “Nossos desejos não mudam com a idade. A única exigência que faço a mim é a de abraçar tudo com paixão. Se não for dessa forma, prefiro não fazer”, comenta.
O alto grau de exigência em relação a si própria fica óbvio na tentativa de se auto-definir. “Tenho muitos defeitos. Nunca estou satisfeita comigo mesma e sempre acho que posso fazer melhor. Elogios chegam a me causar incômodo, pois não gosto de me expor”, desabafa.
Há quem prefira não falar sobre o passado, com o receio de que a jornada traga de volta lembranças indesejáveis. Para Márcia, no entanto, o ato de revisitar sua própria história é algo importante, até mesmo necessário. A morte de um de seus três filhos em um acidente de carro, com apenas 24 anos, é exemplo de superação. O otimismo é característica que não deixou fazer parte do seu dia-a-dia, mesmo após a perda de Rodrigo. “Sou exemplo de que milagres existem. Deus é o que rege a minha vida. Só aumentei a minha fé depois do que aconteceu. Rezar é algo que realmente faz diferença na vida das pessoas”, observa.
De uma caminhada repleta de alegrias, alentos e alguns desencantos, um pedido feito em oração, de forma recorrente, parece ter sido pronta e plenamente atendido: o de se manter uma “sempre garota”, capaz de cultivar a doçura da alma, e carregar no rosto o mais sincero sorriso.
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